
Dexter, uma série deliciosamente irônica em suas nuances, é baseada em livro de Jeff Lindsay chamado Darkly Dreaming Dexter (que por sua vez chegou ao Brasil sob o execrável título de “Dexter: A Mão Esquerda de Deus”). No seriado, que infelizmente tive a oportunidade de conferir apenas a primeira temporada, temos como protagonista Dexter Morgan, um assassino nato. Dexter foi adotado quando criança e, criado por um policial, teve suas tendências homicidas logo percebidas. Temeroso mas compreensível, o seu pai logo começa a perceber que trata-se de um estado de espírito e mental incorrigível. A solução é quebrar as regras e flexionar a maldição. Assim, o pai de Dexter o treina para matar as pessoas “certas”, aquelas que não são punidas pela lei e vagam pela Terra com misericórdia. O ensina também a realizar assassinatos perfeitos, sem rastros. Na vida adulta, Dexter se torna um serial killer muito preciso e hábil – nunca assassinando inocentes, vale dizer – ao mesmo tempo que trabalha na área da forense (análise de sangue) na polícia, ao lado de sua irmã.
Dito isso, foi com imenso choque que li nesta semana sobre um adolescente de 17 anos que estrangulou o irmão de 10 e revelou ter sido inspirado por Dexter Morgan. Na verdade, as palavras certas foram “eu me sentia como Dexter”. Foi revelado também que o garoto assumiu o crime e não sentiu qualquer remorso. Ele comparou o homicídio com o ato prazeroso de se comer um hamburguer. Perturbador, não? Mais ainda pelo fato de que agora Dexter, que já não é politicamente correto, se transformará em alvo para as massas e mídias. Isso não é novo, claro. A arte em sí, especialmente o cinema, tem sido vítima de ataques frenquentes por ter “inspirado” e “estimulado” atos violentos e indecentes.
Me vem em mente o caso do assassinato em massa em uma escola dos Estados Unidos cometida por Cho Seung-Hui. O garoto, que havia sido diagnósticado como mentalmente perturbado, enviou imagens para rede televisiva onde incitava a violência. Um professor da própria escola alertou, então, que as imagens traziam uma clara referência que o remetia ao filme Oldboy, de Chan Wook-Park, um conto de vingança brutal (e brilhante). Assim, começou uma sadia (?) discussão acerca da cultura violenta e as influências desta sobre a sociedade. Resultando na desmistificação da arte diante de sua subjetividade e verdadeiros valores, normalmente subjugados.

O que as pessoas parecem, ignorar, no entanto, é a mentalidade suscetível à influência na qual os assassinos se encontravam. Cho já havia sido declarado instável e perturbado, sofria de um distanciamento social e calculou friamente seu crime. Será mesmo que foi ao assistir Oldboy que ele decidiu marchar até sua escola e matar algumas pessoas, suicidando-se logo em seguida? Não teria ele se inspirado nos próprios fatores sociais, tais como o massacre de Columbine? E o jovem de 17 anos, por sua vez, não matou seu inocente irmão de 10 anos porque se inspirou em Dexter, um personagem que tem seu lado luminoso e que, por sua vez, acabou de ter um filho na série. Se há algo que o seriado prega sem pudor é de que o personagem é um caráter subversivo que de forma alguma machuca inocentes. Sua sede por sangue é satisfeita sob a justiça. Talvez o garoto precisava de compreensão e de certa comunicação dentro de casa. Convenhamos, matar seu próprio irmão (de 10 anos!) requer uma completa instabilidade psicológica. Algo que em nada tem a ver com a ironização da vida provocada por Dexter.
Também me recordo de O Apanhador no Campo de Centeio, livro que retrata a vida de um jovem de 16 anos que busca uma espécie de fuga da sociedade em um momento de epifania e depressão. Mark David Chapman, assassino de John Lennon, escreveu no livro que este era seu testamento, logo antes de cometer o homicídio. O livro, claro, foi estigmatizado e hoje interminavelmente discutido. Claro que não influenciou Chapman, um homem muito perturbado e em um espaço obscuro da vida que, provavelmente, se viu identificado no personagem principal de uma forma recomfortante.
O que quero dizer, no fim das contas, é de que a arte é diversamente ambígua, controversa e aberta à diversas compreensões. Se, vez ou outra, uma pessoa mentalmente afetada e espírtualmente fraca enxergue nela estímulos para atos violentos, não é necessariamente culpa do que foi produzido com meras intenções artísticas. Claro que, mais que o desejável, surgem lixos que servem de banalização e apologia à violência, mas estes se tornam obsoletos. A arte não tem culpa. É a sociedade que molda e cria estas mentes perversas e são as pessoas ao redor delas que as dignificam. O propósito da arte é incitar sentimentos, emoções e, mais comumente, a diversão. Mas é claro que a sociedade precisa culpar alguém. E é aí que obras de arte tornam-se alvos de ignorância.
Se a arte pode banalizar a violência é porque a população a consome. Vive sobre ela como um animal faminto. A esse ponto, a violência (e sua cultura) tornou-se incontestável na sociedade como a conhecemos. Que os conservadores tomem cuidado ao mostrar a Bíblia aos seus filhos. Será que eles pulam o capítulo que conta a história de Caim e Abel?